Pros
Ambiente limpo e organizado, regime híbrido.
Cons
Classificar o ambiente como “tóxico” é simplificar demais. O escritório é pautado em um ambiente estruturalmente abusivo, baseado em cobrança desproporcional, ausência de responsabilização da gestão e incentivo constante a cargas de trabalho incompatíveis com qualquer parâmetro razoável, sempre disfarçadas de “oportunidade de crescimento”. A gestão é imune à autocrítica. O “mea culpa” existe no discurso, mas qualquer falha é automaticamente atribuída ao profissional, com exposição vexatória recorrente. Não há revisão real de processos. O resultado é previsível: turnover alto e contínuo. Em suma, as pessoas saem, a gestão permanece e os problemas também. A sobrecarga não é exceção, é método. Exige-se desempenho muito acima do cargo, sem ajuste salarial. Quando há falha, a responsabilidade é sempre individual, quando há êxito, o mérito é do escritório. A cultura propagada é o oposto da realidade. Fala-se em colaboração, desenvolvimento e “open space”, mas isso se limita à ausência de paredes. O ambiente é de vigilância, exposição e necessidade constante de validação. Discordar não é bem-vindo, o espaço existe essencialmente para concordar. As reuniões semanais deixam isso evidente. Sob o rótulo de “critical thinking”, há longos monólogos baseados em discursos típicos de autoajuda corporativa. Frases como “quem quer dá um jeito”, “todos têm as mesmas 24 horas”, “só tem burnout quem não tem propósito” ou “tem muita gente lá fora querendo essa vaga” são recorrentes e usadas para justificar cobranças desproporcionais e invalidar qualquer contextualização. Há abertura formal para participação, mas qualquer contraponto é mal recebido. O espaço serve para reforçar cobranças, expor falhas e consolidar a ideia de que os profissionais são insuficientes, com frases como “quem trabalha das 08h às 18h nunca vai chegar a lugar nenhum”, “aqui tá cheio de profissionais medíocres”, "as 03h da manhã eu to trabalhando" e “se a meta foi batida foi apesar de vocês”. As "fofocas" ou "conversas paralelas" são tratadas como desvio de caráter nos discursos institucionais, mas os rumores geralmente partem da própria gestão ou de profissionais próximos. Quando conveniente, é não apenas tolerada como incentivada, quando contrária a alguma ideia da gestão, vira instrumento de desqualificação. A exposição pública é recorrente e vexatória, especialmente em reunião de equipe. Falhas são amplificadas e utilizadas como exemplo, buscando a retaliação não apenas do "ato praticado" mas do profissional. A exposição não encerra com a saída do funcionário, ao contrário, ainda que peça demissão ou seja dispensado, seu caráter e capacidade técnica seguem sendo rechaçados pela gestão em reuniões semanais e o egresso é tratado como incompetente ou ingrato. Se obtém êxito posteriormente, o escritório reivindica o resultado com narrativas como “fulano não é bom, o escritório o fez bom”. Basta um desalinhamento com o que a gestão acredita ser digna, ainda que apenas na forma de saída, para que a narrativa seja rapidamente ajustada e o profissional passe a ser retratado de forma negativa. A estrutura hierárquica é meramente ilustrativa. Já houve desligamento de um advogado na semana anterior ao Natal sem ciência do "head" da área. Em contrapartida, quando o profissional pede saída, exige-se permanência prolongada em nome de “gentileza”, sob pena de ser tratado como ingrato. Vale lembrar que o regime adotado pelo escritório é o de advogado associado, ou seja, quando há dispensa, o profissional sai sem qualquer garantia. Essa lógica também se repete na política de bônus. Embora haja previsão de pagamento por desempenho anual e sua concessão ocorra em dezembro, o pagamento só ocorre em 20 de abril do ano seguinte e está condicionado à permanência até essa data. Isto é, o escritório pode dispensar o profissional até quase 4 meses após a apuração do desempenho e reter o pagamento, o que é totalmente incompatível com a boa-fé. Como se não bastasse, a diferença entre consultivo e contencioso é evidente. O consultivo concentra reconhecimento e proteção, enquanto o contencioso sustenta a operação com maior cobrança e exposição, ou seja, se você atua majoritariamente com contencioso, já entra no escitório em "desvantagem" e é visto como um profissional inferior. isso reflete na forma em que as eventuais falhas são tratadas, no contencioso, falhas operacionais e desvios sem prejuízo efetivo são tratados como desrespeito. No consultivo, erros com impacto real são tratados sem exposição. O critério não é o erro, é quem erra. Os procedimentos são definidos por uma gestão sem vivência prática no contencioso, gerando exigências desconectadas da realidade, que obviamente geram falhas operacionais. Quando falham, a responsabilização é novamente integralmente atribuída ao profissional, acarreta em alto turnover e retomamos o ciclo de "achar um culpado desde que não seja a gestão". Produtividade é confundida com presença. Permanecer por longas horas e demonstrar disponibilidade pesa mais do que qualidade técnica ou resultado, por isso aqueles que alegam trabalhar de madrugada ou abrir o escritório as 03h da manhã são tratados como exemplo de aderência a cultura insitucional, ainda que inexista qualidade técnica e as entregas se mostrem questionáveis. A exaustão é tratada como virtude, e qualquer tentativa de estabelecer limites é vista como falta de comprometimento. No fim, é um ambiente onde o erro é sempre seu, acertar nunca é suficiente e o êxito é sempre da instituição. Crescer não depende de capacidade técnica ou dos resultados, depende do nível de alinhamento com a gestão. Os exemplos se acumulam: um download de jogo em celular corporativo ou o uso de token diverso do autorizado pela gestão é tratado como falta de ética e desvio de caráter, a culpabilização de um profissional e de sua equipe por uma crise de ansiedade, reduzindo a “falta de propósito” e inúmeras micro agressões inerentes à rotina imposta. Em termos diretos: uma gestão narcisista, estruturada no ego do dono.